É muito comum ver as pessoas transferindo pequenas grandes responsabilidades de sua vida à terceiros, e acredito que a relação da sociedade com os sistemas de transporte passa diretamente por isso.

Como usuário do sistema público, e sem opção viável [por enquanto], vejo que as maiores reclamações partem ou de pessoas que só usam de maneira esporádica, ou sequer sabem quantos ônibus passam perto de sua casa. Já os usuários que reclamam, são pessoas que organizam mal suas vidas.

 

Em Curitiba, quem tem um plano diretor em formato de alvo, onde do centro às bordas o nível socioeconômico vai reduzindo, a possibilidade de ir e voltar sentado e em 50 minutos de um extremo ao outro da cidade é diretamente proporcional a sua capacidade de organizar seu trajeto sob as premissas dos horários dos ônibus e do seu horário de trabalho. Ou seja, a reclamação ou é [parcialmente] improcedente, ou [totalmente] incoerente. Esse post mesmo, foi escrito e publicado num trajeto de ida de certa manhã nublada, com o ônibus com todos os assentos ocupados e poucas pessoas de pé, no começo da 2a. metade da hora do rush.

Já as pessoas que moram realmente longe do seu local de trabalho e tem que sair no horário “das sardinhas”, fazem mais ou menos como eu: reclamam menos e trabalham mais, para viabilizar uma alternativa. Aqui, alternativa para essas pessoas significa carro, algo que os curitibanos gostam, muito. Pra mim, significa bike. Curitiba vai correr atrás dos planos de outras grandes capitais e readequar seu passo para quem pedala. Não fosse deixar três mulheres muito preocupadas (e não gratuitamente¹), já utilizaria somente a magrela como meio de transporte. Serve como transporte em dias alternativos, e como entretenimento em todos os outros.

Como um dos responsáveis indiretos pela quantidade de veículos na rua em Curitiba, garanto sem medo que não importaria a quantidade de veículos na rua desde que [1] os motoristas fossem melhor instruídos, [2] não inventássemos todos de estar na rua na mesma hora [pra quem é de fora, recomendo passear em Curitiba por volta das 20, 21h. Parece cidade interiorana… tudo deserto, luzes de dentro para fora acesas, e só o vento típico daqui circulando!] e [3] as vias de circulação fossem ainda melhor divididas. Hoje, estamos chegando numa situação caótica. Há 6 anos temos obras ininterruptas no sistema viário e é como se nunca acabassem, ou deixassem uma fresta sem aparar. Somada ao mau deslocamento dos motoristas, nos transformamos em mini Paulicéia nas 3 primeiras e nas 3 ultimas horas do “dia útil”.

O mais irônico disso tudo é que, quanto mais eu ajudo a vender carros, menos interesse eu tenho em manter um na minha garagem… pois o outro agente do transito em pré-caos é o exibicionismo, a assinatura de status em 4 rodas. Muita gente que tem, simplesmente não precisa. E quem precisa ainda não pode ter. Contudo, colocado bem na pontinha do papel, e adicionando o elemento “capacidade de planejamento”, é mais confortável andar de ônibus [chegar em casa em uma hora ou ficar sentado 3 na sua redoma particular, perdendo tempo: o que é mais confortável mesmo?] e, conforme o contexto, extremamente mais barato. Encaro-o como uma ferramenta de trabalho e como um transporte alternativo. Como [no momento] não preciso dele para trabalhar e o meu transporte alternativo, por enquanto, não precisa ser deste tamanho, tá lindo como está.

Já houve tempo em que fiz força para entender a futilidade alheia neste ponto em especial, mas se tem outra coisa próxima da infinitude como é a ignorância, é a falta de bom-senso. Sai muito mais barato o estabelecimento de uma cultura de utilidade das coisas, onde o meio seja mais importante que o objeto de deslocamento, que me dá vergonha pensar que as pessoas simplesmente não querem pensar nisso. Aí quando eu digo que o resto é só o resto, o resto fica estranhando…

¹ Os números são de 2011 mas a média deste ano mantém-se a mesma.

•)) sem música!

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One thought on “Uma visão do transporte, de quem tem opções restritas.

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