Nos últimos 15 anos temos acompanhado uma evolução bem interessante da quantidade de seguidores de uma determinada religião. A “revolução com Deus” sempre fora seguida por um tanto de discussões acerca dos sexos dos anjos (se religião x ou y é melhor) ou de preconceitos velados (personagens caricatos e caricaturados na mídia) ou explícitos (nem vou explicar muito: atire a primeira pedra quem nunca ouviu os termos crente e/ou macumbeiro cercados por comentários um tanto quanto absurdos, para o bem e para o mal?). O que temos aqui é uma falha gravíssima de pensamento, de cultura mesmo: confunde-se fé com religiosidade, e nesta confusão, Deus foi transformado num mercado, e não num ponto ainda mais distante de nós, que nos permita a crença em situações específicas ou prometidas.

A religiosidade é um motor de condução importantíssimo para o cotidiano de muitas pessoas, principalmente para aquelas que prescindam de algo inatingível para conduzir sua caminhada diária. Louvar e agradecer a Deus (com qualquer de seus nomes e sob qualquer tipo de rito) e seguir um pacotinho de regras é um meio muito bacana de permanecer conectado com uma missão que nos distraia da filosofia mais humana que existe, que todos praticamos e o fazemos com três perguntas clássicas: de onde vim, pra onde vamos, e porque estamos aqui (as religiões respondem estas três perguntas de maneira não muito convincentes, mas suficientemente esclarecedoras para quem se contenta com respostas mezzo complexas). Vale tudo para manter a vida em equilíbrio!

MAAAAAAAASSSS, religiosidade sem fé nada mais é do que um amor um teco doentio e um teco irracional, tal qual a torcida / escolha por um time de futebol. Cada um de nós conhece uma pessoa extremamente religiosa, que segue fielmente os preceitos da religião defendida escolhida e desce a lenha em tudo aquilo que parecer ou for oposto à liturgia praticada. No que será que essa pessoa tem fé? Em humanidades, sem dúvida. E é tanta fé em humanidades que a repreensão constante as atitudes de outras pessoas e as campanhas exacerbadas para que todos estejam “convertidos e ungidos” soa como tudo, menos como fé, no sentido completo do termo.

Este sentido completo do termo, para mim, tem como primeiro principio o respeito às escolhas que cada um possui. No livro mais famoso do mundo, existem duas passagens que são claríssimas: tratem a todos com o devido respeito (Pedro 2:17) e faça pelos outros aquilo que gostariam que fizessem por você (Mateus 7). E se até lá, no livro no qual muitos sobem em cima a partir de interpretações pessoais para condenar ao seu igual, como não entender algo tão óbvio?

O segundo principio da fé é o caminho para o qual ela nos guia. Fé é imprescindível para toda e qualquer atitude que tomamos em prol de uma vida mais satisfatória. É compreender que os ônus e bônus das escolhas que praticamos diariamente não serão reduzidos ou ampliados porque confiamos demais ou “demenos” em Deus, pois a partir do livre-arbítrio, nos foi concedida uma mochila, e nela só cabe o que podemos suportar, e só recebemos lições com as quais podemos realmente aprender, tal qual as pessoas que passam por nossa vida. Outro principio é que ela é particular: cada um tem a sua e ela tem seus tamanhos; não cabem comparações, afinal, ninguém pode viver a vida do outro por ele.

Assim, quem realmente se sente bem com aquilo que pratica, jamais conduzirá de maneira incoerente outras pessoas para “seguir o mesmo caminho”, única e exclusivamente por vaidade perante alguns pares. O maior líder dos últimos milênios arrebanhou seguidores graças ao seu exemplo, a sua atitude. Isso por si já deveria ser inspiração suficiente para cada um entender que sem fé somos apenas ovelhas pastoreadas por humanos – alguém exatamente igual a você – para atingir objetivos um tanto quanto distantes da conquista da compreensão do amor e da sabedoria para a jornada de uma vida em equilíbrio.

Uma vida com apenas um dos elementos costuma ser “incompleta”: religiosos sem fé são radicais Divinos e pessoas de fé sem religiosidade são persistentes objetivos. Ter um pouco dos dois é bão: religiosidade muito praticada, desde que com fé, nos conduz a evolução pessoal. Fé com religiosidade nos permite compreender os pontos bons e ruins de cada religião e, a partir disso, tecer seus mandamentos particulares em prol de uma vida sem arrependimentos irremediáveis, afinal, temos todos um Deus dentro de nós. Aquele que faz com que sejamos amor, vejamos beleza, enxerguemos a nós mesmos. Para que todo o resto seja o resto com toda a naturalidade possível.

[] “Every road is a slippery slope

But there is always a hand that you can hold on to

Looking deeper through the telescope

You can see that your home’s inside of you” / 93 Million Miles, Jason Mraz. 

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