Ao fundo, uma musiquinha-romance-vocês-vão-ler-jájá.

De longe parecia uma decoração bonita, mas aquelas marcas nos dedos eram unhas roídas. Vermelhas com curvinhas, joaninhas sem pintinhas, em mãos um pouco menos nervosas e infinitamente menos ansiosas que sua dona. Já era a 3ª promoção de passagens só naquele mês, “será que agora ele vem? Aimeudeus, uiii…” [não conheço mulher que não suspire até em pensamento, e você?]. Já tinha avisado no nick do MSN [direta e indiretamente], já tinha escrito até um post sobre como as empresas de aviação tem sido generosas nesse período do ano… só que mais desligado que ele, apenas celular sem bateria e orelhão de rua sem saída.

Não sei se por atribulação normal ou por relapso natural, o fato é que o muleque era assim, quase um atento bipolar. Gosta dela, bastante, mas fica tão ocupado com suas coisas que quando pensa nas coisas em comum, é comum que viaje para outros lugares do seu pensamento [des]organizado. E não que ele já não tivesse pensado nessa viagem, é que quando ele lembrava da promoção, lembrava também do medo de voar, e começava a listar os medos, até que o medo de ver fazer algo ficar sério o levasse pra outro pensamento.

Mas naquele dia, ele viu, de verdade, o nick. E atentou-se, de verdade, em sua coragem. Entrou no site da tal empresa, viu os dias, abriu o bolso e fechou os olhos. Dai avisou [na net mesmo]:

– tem pão seco pra mim nesse findes?

– han?

– vou pra tua cidade nessa sexta…

– [pessoa multicolorida começa a ficar com as mãos nervosas. Uma vai à boca. A outra ensaia digitar. As duas começam] essa, depois de amanha?

– ahrã.

– [Aaaaaaaaaaaaimeeeeudeuuuuus, uiiiii…]nossa, que bom… muito bom… [wtfuuu, Isis?!?! Isso é resposta?]

– comprei na promoção, vou de avião. Chego no comecim da noite… me ensina o caminho da tua casa?

– não precisa, eu vou te buscar… só me diz que horas msm teu vôo sai, que daí eu me programo…

Mais uns 5 minutos de conversa, bjos e até logo trocados.

Dois dias de biscoitinhos roídos [“será que eu to gorda? Aimeudeus, uiii…”], já que as unhas precisavam estar impecáveis num vermelho novo, que combinavam ainda mais com o tom da pele, cor de nuvem de céu de fevereiro tropical. Dois dias de novidade para ele, que dessa vez tinha que quase arrumar seu quarto pra poder arrumar uma mochila grande. Chega o dia, e mais duas horas.

Ela, no ônibus, via-se aninhada no peito daquele corpo da mesma altura, medindo as mãos e brincando com os anéis, percebendo que a mão dele era maior e o seu dedo anelar sequer daria o dedinho dele, que além de sorrir tentaria, como sempre tentamos, colocar o anel ali e prendemos na metade do dedo; pra ele puxar com força e não tirar, e ela pegar com jeito, e tirar: o anel, e com a cara dele, revidando a brincadeira. E os vários sorrisos que esses casais costumam trocar.

E já pensava na tarde seguinte, onde começaria a ensaiar isto. E em todas as formas que o fez, nenhuma cabia em 140 caracteres. Mas merecia vários retweets.

Ele acompanhava o pôr-do-sol de uma visão privilegiadíssima, e seus pensamentos em poucos minutos lhe levariam a pensar em também usar mais um anel. Nesse meio tempo, pensava na viagem em si. A motivadora e os motivos. As perguntas e as certezas. Ainda não sabia se tinha ido para ficar, o certo é que já estava ocupando a única morada onde realmente precisaria estar, e fosse lá o que deixasse, também seria o suficiente. Pronto pra continuar fazendo. Fazendo completude ser cotidiano. Fazendo felicidade ser rotina, quebrada vezenquando, necessariamente. Fazendo o resto ser o resto.

[♫]“Espero o dia que vem / pra ver se te vejo / e faço o tempo esperar como eu esperei…” O tempo, Móveis Coloniais de Acajú. Clica ali no símbolo musical pra ouvir :)

7 thoughts on “Romance wi-fi.

  1. oi tony, como sua casa está clean….estava na hora de ter esse espaco, nao é mesmo?
    depois que eu tive meu endreco, adeus BLogger…

    Olha, aquela foto nao ficou daquela forma por causa do HDR, nao.
    As cores das casas, sao originais.Sem saturacao.
    O que ocasionou aquela foto foi que uma delas estava com efeito panning…Justamente a parte que se relaciona com a neve que ficou que ficou em cima da casa.:Ao se sobrepor as camadas, lays, elas ficam como arte mesmo.

    Mas, apra chegar á quela foto deu um trabalho danado…Tive que fazer varias fotos iguais…

    bjs e dias felzies

  2. Oi, meu querido jovem sábio!.Amei a conclusão: “Fazendo completude ser cotidiano. Fazendo felicidade ser rotina, quebrada vezenquando, necessariamente.” vou completar espantando uma doença típica da minha geração: ” Sem culpa”.

    Beijão garoto.

  3. Fiquei a pensar nos posts q li até este.Fiquei baralhada,por questões pessoais.Obrigada.Involuntariamente puseste uma mente cheia de certezas a bailar nas indecisões.
    Gostei!
    Como diz a nossa amiga comum…”Dias felizes!”

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