Andar de bicicleta não é uma coisa sobre a qual você pensa muito: respira fundo, pega embalo, e pedala Robinho. Tá pra fazer 10 anos que tenho uma, e desde então, figura entre as coisas que mantém o equilíbrio da minha vida.

Para conquistar a primeira bike, precisei juntar dinheiro fazendo trabalho dos meus colegas de escola, pois além da vontade adolescente, era uma necessidade: ficaria bem mais rápido ir à escola e era compromisso garantido com os colegas, tanto para jogar bola quanto para simplesmente passear. Fiquei quase um ano com ela, e entrou como parte de pagamento numa bike ainda melhor, que foi roubada dentro de um supermercado. O dinheiro foi restituído e deixei para a minha família, que precisava para fechar o aluguel do mês. No mesmo ano, do dia para a noite apareceu uma bike bem detonada no terreno baldio do vizinho, que depois de um “não, não vou usar” tornou-se minha e foi arrumada aos poucos até ter condições de uso, alguns meses depois. Alguns incrementos depois permanece comigo, firme e forte, parceirissima.

Mais que um entretenimento, bikear é outra forma de estarmos conosco, prestando atenção no trânsito, mas contando também só com os próprios pensamentos. É deixar o vento bater e levar as pequenas grandes preocupações, nos deixando refletir mais uma vez sobre as decisões que tomamos, as ideias que queremos construir, as teorias que alimentamos e queremos transformar em prática. É um exercício de bem estar e bom senso, alguns instantes de experimentar uma liberdade que tem muito mais a ver com o desprendimento de nossas escolhas do que com o impacto absorvido sobre tudo que vivemos.

É permitir-se conhecer outros lugares, e reconhecer os locais de sempre através de alturas diferentes, olhares diferentes, velocidades diferentes. É excelente para aprender a dirigir, pois a noção de espaço que pedalar em grandes cidades oferece é igual ou superior a de estar num carro, ainda mais quando o valor do que você tem que proteger [a vida] é o mesmo. Também é correr riscos, ter vontade de xingar muito os motoristas irresponsáveis e torcer para que todo ciclista irresponsável pague por sua incoerência sem que todos sejam julgados e rotulados pela mesma atitude estúpida.

É o meu segundo meio de transporte predileto, perdendo para as pernas e ganhando do busum. É a minha opção assim que efetivamente viável ir pro trabalho com ela, o que é mais uma doce ironia quando você cuida de 3 contas relacionadas ao universo automotivo, na publicidade. É o que me ajuda a pensar que o resto é só o resto.

[♫] “Run, run, runaway, runaway, baby / before I put my spell on you…” – Runaway Baby, Bruno Mars.

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