Precisamos de uma adolescência inteira, e as vezes até de um pouco mais, para reconhecer a diferença, a sutil diferença entre ocupar-se com algo ou construir algo maior. Quase todos os tipos de relacionamentos que temos que estabelecer nesta vida moderna resumem-se a uma destas escolhas e sim, qual ela seja, muda completamente a maneira como vivemos, aprendemos, e repassamos isso.

Atendo-me aos amorosos, a afirmação ganha um impacto maior… ou vai me dizer que, até voce estar acompanhado por alguém que não mexe apenas contigo, mas com a sua vida, não fica a impressão de que tudo que era vivido antes foi apenas tempo usado? Quem ai já não confessou para amigos que “estar com fulana(o) foi perda de tempo”? Atire o primeiro depoimento do orkut quem nunca disse “ciclana(o) é perda de tempo, não fique com ela(e)”... e por ai vai? E não adianta esconder-se no velho discurso de “tudo que eu vivi foi aprendizado para estar com outra pessoa” porque se fosse mesmo, não tinha tanta gente, em pleno 2012, com o mundo aí quase acabando, batendo cabeça por causa de toda uma sorte de sentimentos tão intensos e ao mesmo tempo, tão rasos.

Contudo, é necessário prestar atenção no que vive e, também como aquelas históricas e clichezudas frases afirmam, fazer de cada dia, de cada momento, uma pedra que solidifique nosso caminho. Num relacionamento [onde só podemos descobrir de fato se ele é bom ou ruim estando fora dele], primeira coisa: esteja nele de verdade, esteja hoje, agora. Não fique pensando no que ele pode vir a ser, nem opte por voltar para um a partir de um processo excludente (terminou o anterior por motivo x, no próximo a pessoa deve ser o exato oposto da anterior). Trocando em miúdos: viva o dia-a-dia, aprenda com o dia-a-dia, e desencane de expectativas bobamente construídas ou erroneamente impostas pelo ladelá.

Segunda: parceria. Aqui é teta descobrir se você se ocupa ou se relaciona… quando falta a parceria, sobram discussões! Quando sobra parceria, falta intimidade! Se sobra intimidade, é só amizade :D… um relacionamento construído é feito de parceria na medida: não é a melhor das amizades, mas é uma das mais gratificantes. Não é a pessoa que vai fazer tudo com você, mas vai (tentar) sentir prazer em tudo que fizer contigo. Não é a pessoa que anula a sua vida para ficar ao seu lado, mas consegue somar a vida dela na sua para moldar duas, inteiras. Não é a pessoa que impõe a vida dela para você viver, mas a que exclui da dela, por livre e espontânea vontade, tudo que não precisa, para que você caiba com tudo que pode e merece.

Terceira coisa: pode não dar certo! Os únicos laços que nós efetivamente temos na vida são (a) com nossos pais, de onde viemos e (b) com nossos filhos, que eventualmente traremos ao mundo. Todos os outros [to-dos-os-ou-tros!] são passiveis de serem desfeitos. Ponto. Com esta perspectiva em mente, as suas chances de viver o relacionamento fazendo a sua parte para que ele dê certo aumentam. Você desencana de assumir a responsabilidade completa por isso e, principalmente, não cobra do outro lado uma responsabilidade que seja maior que a assumida. É a analogia de jogar tênis ou frescobol: no primeiro o objetivo é o erro do adversário [termo sugestivo, não?], no segundo, só dá certo se for entre parceiros… um acerta pelo outro e para o outro.

Quando nos ocupamos com outra pessoa, dificilmente levamos algo bom conosco, mesmo quando guardamos os melhores sentimentos. A mágoa absorvida sempre é descontada em alguém: ou no próximo relacionamento, ou em outro alguém, ainda mais alheio a escolha que ninguém lhe obrigou a fazer. Construir um relacionamento exige de nós um exercício ainda mais humano: maturidade, observação, aprendizado. Capacidade para não querer absorver do outro todas as possibilidades de que a sua vida seja resolvida por aquele alguém enquanto você mantém permitindo-se viver de qualquer forma, qualquer coisa. Algo que podemos fazer na adolescência, sem deixar que leve um tempo a mais para isso. Se a adolescência já passou e a carência chegou, relaxa: pare de reclamar do que não deu certo e construa seu melhor relacionamento: primeiro contigo, depois com alguém que valha a pena nomear de “quem me completa”. Assim o resto é só o resto.

[♫] “… the feelings that we used to know / the places we used to go are all still there / in my dreams… ” – In my Dreams, James Morrison.

2 thoughts on “Práticas teóricas de relacionamento | 4 – ocupação VS. Construção.

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