… aqui os arranha-céus são só degraus pra São Pedro. Minha cidade não tem nada muito maior que o sonho dos seus habitantes, a começar pelos meus, que de realidade são tecidos em cada dia que se vive. Mas suas noites são um desbunde. Sejam aquelas de outono onde o cinza se confunde com mais cinza e as únicas cores estão na mente, minha e dos demais ou as do verão, onde a companhia do por-do-sol joga um vermelho-vontade nos tons do frenesi do centro, onde o mar vermelho é de faróis nas principais avenidas e pra qualquer lado que se estique o pescoço você vê mais máquinas e máquinas. Não sei se quem está nelas vive como Arnaldo Antunes sugeriu [com corações que já não batem e nem apanham], mas apenas estão lá, perdidos em seus pensamentos ou irritadiços com a previsão. Do tempo? Não, do trânsito, que faz todo lugar perto ser longe e todo lugar longe, um paraíso. Por isso que mais vale um caminhar.

Tirar a mochila de um lado das costas, abraçá-la sem medo da violência urbana [toda vez que escrevo isso imagino a cidade se transformando num daqueles monstros tipo mascote de programa infantil apresentado por loira jovem que seriam derrotados pelos Power Rangers], e deixar aos fones um leve suspirar diante da sinfonia das 19h. Complicamos tantas coisas para simplificar outras, e vivemos achando que precisamos correr, quando mesmo pra isso, precisamos aprender a botar uma perna ao lado da outra, e depois um pé na frente do outro, incessantemente. Um passo ou 5 piques, mil metros ainda são mil metros. Caminhar, faz sentido? Esse texto, precisa fazer sentido? Ou podemos escrever por escrever, tal qual reclamamos por reclamar, nos incomodamos por sobra de tempo e nos apaixonamos por distração? Podemos imitar a vida e ir passando sem pedir explicação, sem ter explicação, sem buscar uma explicação, ou dá pra caricaturizar-mo-nos [se essa não existia, inventei, possivelmente passando outro pedalarobinho na nossa escrita] e viver mais um pouco?

Há outras formas de dizer que hoje a minha vontade era caminhar por ai deixando a noite passar, mas quando eu ia argumentar o porque de vontade tão estranha [e tão bacana, vai dizer que não?], a última parada chegou e outro ônibus me espera, pra pass[e]ar pela outra parte da cidade onde nem tem arranha-céus, que aqui são apenas degraus para São Pedro. Onde meus sonhos serão revisados noutra curta noite de sono. Onde a realidade, por hoje, está construída. E o resto é sempre o resto.

[♫] “once u take a hit of this, you won´t ever wanna quit / you’ll be soooaaaaa-ddicteeeed… – Let´s Get Lifted, John Legend.

One thought on “Ponto final.

  1. eu comecei a ler e tudo foi fazendo um sentido tão grande que, lendo, analisei muitas outras coisas e, por ora, até me distrai um pouco. tornei ao texto e tudo continuou a fazer sentido.

    perfeito. bom feriado, Tony! **:

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