… e o nome é: família. Parece estranho dizer isso, mas não consigo achar que seja. É onde está o meu suporte, a minha base, boa parte das referências positivas que formaram os meus caráter e personalidade, mas é também onde residem as preocupações que efetivamente me tiram o sono. Afinal, tudo tem dois lados.

Ela existe há 44 anos, mas só faço parte dos últimos 29. Com noção exata do que significa estar nela, tem pelo menos 20. Com entendimento pleno do que significa ser um dos Sousa´s, um pouco mais de 15. Foi uma família que não foi construída no amor, mas sim na assumpção da responsabilidade de criar juntos um filho que não se cuidaram para que nascesse, e depois que nasceu, morreu por uma circunstância alheia às vontades terrenas. Responsabilidade que, por incoerência e falta de respeito mútuo, transformou-se em mais 3 crianças dentro do casamento, 3 fora (2 nasceram, uma não) e eu (dentro). Uma família que se manteve de pé com a incoerência e inconsistência humana, com a pluralidade religiosa, a crença em Deus, a noção de que a vida tem um sentido para ser vivida, e na transferência de responsabilidade, de pais deprimidos e instáveis emocionalmente, para os filhos, ao terem que honrar os compromissos financeiros assumidos, alguns inevitáveis, muitos desnecessários.

Meus irmãos cresceram num ambiente muito mais intranquilo que o meu. Idas e vindas, histórias tenebrosas, assistindo brigas, sendo o motivo de brigas, e uma ou outra surra de graça, numa economia do país muito mais agressiva do que agora. Amadureceram num momento do país onde tudo era mais difícil, e os meus pais (suas personalidades) inclusos nesta dificuldade. Criaram em si um pacote de desequilíbrios emocionais tão grande quanto os dos seus progenitores, e envelhecem com monstros muito mais “auto consumentes” que os meus. Dois só não cortaram os laços totalmente porque entendem que não podem, mas cortaram tudo que conseguiram. Precisaram sair fugidos do lado dos meus pais para poderem ter uma outra noção e referência de vida. Eu e minha irmã ficamos e assumimos toda a bronca de nos manter e manter uma [noção de] família de pé. Assumimos e, graças as minhas escolhas junto com a dela, impulsionados por uma economia mais simpática ao Brasil, transformamos nosso padrão de vida e deixamos que nossos irmãos que saíram fossem o que quisessem. As minhas batalhas deste período estão aqui no blog, sempre estiveram. Minhas vitórias descritas com riqueza de detalhes, e minhas derrotas com discursos motivadores e/ou com a capacidade de aceitar que precisava daquilo pra crescer.

Com o falecimento do meu pai, acabei me transformando em um dos centros de decisões sobre os rumos a serem tomados, e mesmo antes deste falecimento, sou eu que tenho feito de tudo um pouco para deixar a minha mãe, que fez a escolha de anular a vida dela para manter-se próxima aos filhos e agora, que os filhos estão criados e independentes, não quer fugir deste papel, com um ciclo de resto de vida minimamente melhor do que viveu até então. É o último laço que une os 4 filhos no conceito nos quais crescemos, de família.

Digo minimamente melhor porque não sou responsável pelas escolhas que ela venha a fazer. Escolhi estar responsável por dar um padrão de vida pra ela que não teve enquanto dependia de um marido e de mais três filhos e reclamava que lhe faltava autonomia. Hoje, livre para fazer o que bem entender, segue inerte. Escolha dela, correto? Desde que não seja um quadro recorrente de distúrbios emocionais que nunca foram levados a sério numa família onde a cultura de “viva e ocupe-se, que assim você não vai ter esse tipo de problema” fora por muito tempo difundida. Quadro recorrente que assombra os três irmãos que não percebem que seguem se tornando tudo aquilo que criticavam dos nossos pais. E que as vezes optam demais por reclamar ao invés de fazer…

Pintado o quadro, posso dizer que a família tem os monstros que tentam me consumir porque são a minha base e referência de muito que faço de positivo. Boa parte dos reforços negativos também são de lá, mas estes eu tenho analisado com muito mais paciência desde os surtos adolescentes onde assumi (de lá) a escolha de não ter uma família como a que tenho (e de não colocar um filho no mundo enquanto efetivamente não puder dar algo melhor para ele), mas sim melhor. Assumi a escolha de encontrar alguém que eu realmente amasse e não abrisse mão dela por nada, exceto por uma escolha [e encontrei, duas vezes! Em uma deixei de ser escolhido, nesta segunda, estou vivendo :)]. Assumi a escolha de encontrar em cada dia, todos os dias, uma versão melhor para tudo e todos que precisam de mim inteiro, a começar por quem tenho que encarar no espelho. É tudo isso que me faz enfrentar estes monstros.

O monstro de não dar um passo para trás (apenas se for pra pegar impulso) nem com a minha origem nem com o que estou construindo, para não repetir o que meu pai e meus irmãos fizeram [e fazem] com a vida deles. O monstro de não entrar num casamento e me transformar numa pessoa maluca e frustrada só porque preciso honrar com um compromisso, ou de encostar a minha vida no próximo desencontro que pintar nela e tratar apenas como “é o que tem pra hoje”. O monstro de não me tornar aqueles homens que transferem para qualquer coisa a covardia de assumir novas escolhas e sumir da vida de gente que não te soma nada de positivo, nada mesmo (e que geralmente faz questão de sugar tudo que você tem de positivo. Vampiros existem sim…). O monstro que senta em cima da gente e quebra o nosso espelho, nos tornando tudo aquilo que mais criticamos. O monstro de construir uma vida sem amor, sem respeito verdadeiro, sem vontade de fazer a vida do outro melhor e mais feliz, e não apenas sugar tudo que ela venha a me dar. O monstro de não rotular um filho como um obstáculo, uma pedra no caminho, um karma, como se não fosse uma escolha de duas pessoas (que espera-se que sejam) responsáveis e cientes de que era aquilo mesmo que queriam. O monstro de utilizar a criação como desculpa para não evoluir como ser humano, e seguir uma pessoa escrota incapaz de realmente conviver com as dificuldades, humanidades e incoerências das demais pessoas, que assim como nós, são imperfeitas. O monstro que rouba a alegria das pequenas coisas e não nos deixa mais aceitar que a vida é como é, que é na soma das pequenas e boas coisas que as grandes coisas boas fazem sentido, fazendo com que a vida seja boa sim. Porque tudo tem dois lados.

E o outro lado é que com todos estes monstros que a minha família me deu para brigar, e com todas as diferenças de personalidades [e capacidades de enfrentar seus monstros e problemas] que cada um tem, é neles que vejo exemplos muito vivos do que não fazer. É com eles com quem converso sobre as demais dificuldades da vida e ouço mais do que o irritante clichê de “não fique assim, tudo vai melhorar, você vai ver, fique bem, tudo vai dar certo, tudo passa com o tempo”. É com eles que não preciso me juntar à mesa para viver um bom momento e isso significar ficar falando mal de outras pessoas ou das coisas que outras pessoas fazem. É deles que ouço que determinada postura ou atitude não vai servir para aquilo que eu realmente quero. Vem deles as coisas que eu preciso ouvir, e que não são as que quero (ou acho que vou) ouvir. É das mesmas coisas que eles não sabem fazer diferente que encontro tanto o momento de prazer de lembrar que isto também é parte de mim, quanto o filme para “isso você mantem, isso você não mantem, e faça a sua vida ser como você acredita que pode ser melhor”. É com a soma do que eles são, alegrias e monstros, que conduzo os meus dias com todas as batalhas e sabores, procurando sempre fazer do resto, só o resto.

[] “Cachorro, gato, galinha, bicho de pé

E a população real convive em harmonia normal

Faz parte do dia dia banheiro, cama, cozinha no chão

Esperança, fé em Deus, ilusão”. Quando a maré encher, versão acústica da Cássia Eller para música de Nação Zumbi.

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