Dia frio.

Cinza, pronto para chover. Cinza, como o olhar dos transeuntes que absorvem um céu deprimido.

Enquanto a trilha do dia carregava no player, uma volta para pegar um café do outro lado da sala.

Blusa jogada de um lado, pasta jogada para outro, corpo se jogando ao ritmo da xícara, que àquela hora precisava estar cheia, já que o dia também seria assim.

Nos meus olhos, o inchar de várias noites um terço mais curtas [ou dias um terço mais longas, conforme seu modo de ver, atento leitor].

Nos meus pensamentos, aquela nuvem que parecia um sorriso, bailando macia atrás dos prédios, de algumas luzes, de outras nuvens. Ironias climáticas ou devaneios visuais?

Cortinas abertas, fazendo contra-luz ao monitor.

Três páginas em branco pedindo respectivamente: 4 versos, 5 laudas, e 29×21 de arte com prédios, e as três coisas devem ser de alguma forma interligadas. Passa tempo, passa.

Escreve moço, escreve. Cria, de novo. Imerso horas a fio na teia das relações comerciais e da técnica de vender sonhos em metros quadrados, nem vejo que a janela escureceu.

Só me dei conta quando as coisas lá fora estremeceram, ela e o resto. Era tarde.

E então vi.

Tardes chuvosas de corpo no piso de madeira na temperatura ambiente, um universo do tamanho da minha casa, com cheiro de bolinho e pão caseiro, saindo já já do forno.

Rádio ligado em alguma FM popular e qualquer coisa sendo pretexto para uma aventura fantástica, de campeonatos de futebol de botão aos desenhos redesenhados da tv.

Álbuns de figurinhas e os bonecos bem maiores que os carrinhos.

Pernas pro ar, esticadas até a cabeça cansar de achar desenhos nas fibras do teto.

Maquinar novas maneiras de levar mordidas dos cachorros, aquelas que eles dão de brincadeira com fundo de verdade, já que gostam de ser apertados, jogados e encocegados.

Antes ou depois das tarefas da escola? ah, sempre que desse. Até a hora do banho. E da janta. E de continuar a sonhar, agora dormindo.

Foi na janela do trabalho ou na da mente? Qual das duas me desmente? Memórias, memórias, memórias…

[♫]Ahh, tanto faz / que o que não foi não é / Eu sei que ainda vou voltar… mas eu, quem será?– O Velho e o moço, Los Hermanos.

6 thoughts on “Lembrar de um dia comum.

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