Flutuava com os pés descalços nº 34 nos tacos recém encerados da casa, ao som de Elvis. E se ele visse como era a dança e como ela dança, não só também acreditaria que não morreu como se sentiria bem mais vivo. Nas mãos, lápis pela metade e um caderno com 4 anos de rodagem, entre mochilas e criados-mudos. Tudo que aquelas páginas diziam tinham seu quê escritora em formação. Era isso e um pouco mais.

Trocou a música e de passos, balançando os pequeninos pés, cruzados entre a cadeira, lápis na boca e cara de hmm tá vindo ideia boa, de costas para a janela do quarto com muita luz natural, de frente para um turbilhão de pensamentos e sentimentos com todo o viver incondicional. Ela, a mesa, o caderno, um copo de suco de morango feito com leite de soja, pão de forma que ela mesma fez um pouco antes de dançar, com a manteiga ainda derretendo e aquela fumaça típica de comercial levantando sabores e convidando o paladar. Hmmm, tá vindo ideia boa.

[…] Fui até você, que me sorri como se sempre me visse pela primeira vez. Perco-me em cada detalhe e no contexto, impossível não querer achar outro caminho que não seja aquele que trilhe ao lado seu. Pois o meu fica completo mesmo que nada fique mais belo: felicidade é uma verdade que carrego dentro de mim, que você vem afirmar e reafirmar, fazendo tudo e nada para que a gente seja assim.  Entrego as demais frases com outro olhar. E busco as suas de braços abertos. Aconchego seu, chega, beija, usa. Vou falar tão bem de você que vai pensar que estou falando de mim. Ou que quero algo pra mim, como se não fosses suficiente. Vou te viver tão bem que vão achar que estou vivendo só pra mim. Por que de ti não quero nada mais: amor, é você, me basta.

Escreveu, leu e releu. Enrolou outro [dos muitos] cacho[s], soltou sem querer – Romântica, eu? Nunquinha nunquinha… – rebolou contrariada na cadeira e custou a acreditar que eram palavras suas. Levantou rumo ao sol da janela, rodando a metade do suco no copo, que colocou para girar três vezes no batente da janela. Admirou a maneira como a luz deixou a cena sépia: seus pensamentos distantes, as mãos encostadas, o olhar fixo. Sentia a pele ficar quente e tentava entender como havia escrito algo que de forma alguma imaginaria formal e sentimentalmente. Mal sabia que duas horas depois, naquela caminhada que sempre fazia, outros passos ficariam dispostos a mostrar que algumas coisas definitivamente não precisam ser entendidas: um olhar, daqueles que entregam frases, basta.

[]”too many corners in my mind. So much to do to set my heart right…” – In Repair, John Mayer.

6 thoughts on “Inesperado parágrafo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *