Em determinado período da vida, costumamos exteriorizar as dificuldades cotidianas, estabelecendo ou criando inimigos externos e “invisíveis”. É a fonte de origem de maior parte daquelas frases de indiretas no facebook, que geram uma constante – e na maior parte das vezes, falsa – ideia de que tem quem passe seus dias preocupado com você, torcendo contra seu sucesso, invejando o que tem (adquire), faz, constrói (como se projetar uma vida diferente da realidade no ambiente de mídia social ajudasse as pessoas a pensarem diferente, né? Mas isso é papo pra outra hora).

Mas, e quando tem quem não é satisfeito com o que você faz, vive, escolhe, e transfere uma responsabilidade que não lhe cabe? Quando declaradamente diz que não gosta de você, não gosta de como você vive, não gosta do que você faz, e não aceita o seu jeito de ser? E reitera que não deseja sua felicidade, que literalmente torce contra a sua vida?

Tem uma pessoa assim, que faz parte da minha vida. E mesmo com inúmeras declarações dela, diretas e indiretas, de que “tem problema com o meu jeito de ser”, eu sigo sem ter nada contra.

Primeiro, porque aceito que ela pense de mim o que quiser. Não posso ser responsável pelo que as pessoas pensam de mim, e bem conversadinho, também apenas 50% responsável pelo que cativo. Se você traz (o seu conceito de) alegria para uma pessoa que já escolheu não sentir-se alegre, ela não vai pensar que você tem algo positivo para oferecer, e sim que você é inconveniente (eis os donos dos outros 50%). Segundo, porque se ela pensa de mim o que ela quer, não posso me preocupar ou me abalar com isso, se ela me ofende, fala mal de mim, ou qualquer tipo de atitude negativa que ela assume a meu respeito. Ela desejar meu mal ou torcer contra é uma escolha dela, não minha. Não sendo minha, transferir para ela a responsabilidade sobre qualquer coisa que eu não conseguir, é um escapismo ridículo. Terceiro: temos a escolha de não conviver, afinal, não somos obrigados. Entre os meus defeitos está a baixa tolerância a incoerência, e considero incoerente você fazer de conta que recebe bem uma pessoa, e praguejar tudo sobre ela assim que ela sai de perto. Independendo a proximidade da relação, considero a melhor forma de lidar com uma pessoa que “não vai com a nossa cara” a transparente não convivência. Se eu incomodo, qual a necessidade de manter proximidade? Se como sou não está bom, pra quer ficar medindo, avaliando, analisando? Que cada um seja como é e siga sua vida.

Parece mais fácil a gente ficar preocupado e pensar “nossa, que motivos essa pessoa tem para pensar isso de mim? Quais motivos eu dei, quais atitudes eu tive para que ela pensasse ou dissesse essas coisas a meu respeito?”, bem como parece meramente arrogante você sentar em cima e “foda-se o que os outros pensam de mim, que pensem o que quiser, sou o que sou e ninguém vai me mudar”. Reparem que utilizei nos dois casos a palavra “parece”. A questão, no meu ponto de vista, é essa: aparência / o conceito de parecer versus a capacidade de simplesmente conversar. Eu não costumo ter problemas em conversar, pelo contrário: sempre preferi que as pessoas dissessem diretamente a mim o que faz com que elas gostem ou não de conviver comigo, o que pensam a meu respeito, do que fazer de conta. Contudo, sei que sou exceção à regra, pois muita gente fala que gosta de sinceridade, mas quando ouve o que não quer / o que não espera / algo que condiz com alguma dificuldade ou realidade dos seus dias, parte para a agressão defensiva, que começa no “você não pode falar isso de mim pq vc é assim assado” e vai até palavras mais pesadas / ofensivas / agressivas. Aí não adianta, heheheh…

faço caras parecidas quando paro pra pensar no assunto… “então quer dizer que você pode falar o que quiser de mim, mas se eu falar o que penso a seu respeito quando você me pergunta, tá errado?”

essa pequena esquizofrenia de “deixe-me falar o que quero e não diga o que sei que vivo mas não quero ouvir” tem sido causa de problema em vários tipos de relacionamento. Considero algo muito pequeno diante do tamanho que os relacionamentos poderiam ter… mas somos humanos e demoramos para aprender que é na singularidade de cada um que encontramos nossa capacidade de crescer e ter uma vida melhor, em diversos sentidos.

Eu sempre preferi a transparência. Muito mais de ouvir do que de falar, inclusive. O tempo vai nos ensinando a ser cada vez mais ponderado nas palavras [no caso de outras pessoas que posso observar, isso significa evitar conversas a todo e qualquer custo, levando uma vida de faz de conta], a falar algumas coisas quando perguntado e ainda assim validar com o outro se ele realmente deseja ouvir o que penso de verdade.

A dificuldade em qualquer natureza de relacionamento é que vamos conversar as pessoas tendem a conversar com as outras levando dois pesos: (1) de que temos a posse de uma verdade que não existe, e (2) que uma conversa só faz sentido quando eu falo tudo que posso e só ouço aquilo que quero. E é por causa da transparência que consigo aceitar que alguém torça contra mim e eu não faça muito mais a respeito do que conversar quando tenho a oportunidade, e não conviver para que a pessoa não “tenha o trabalho” de estar com alguém que não gosta. As únicas pessoas das quais busco validação, tenho contato diário e direto, e vamos nos entender com qualquer modelo que a gente escolha para explicar. Para quem não tem interesse em gostar de mim, ou acredita que só pode gostar de mim se eu seja o que ela quer que eu seja, como se ela precisasse ser o que eu quero que ela seja para gostar dela… que o resto seja apenas o resto.

[♫] “You sure picked / The right time, lady (Hmm) / To come into my life (You know I did) / One kiss from you”. Just one kiss, Raphael Saddiq ft. Joss Stone.

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