Morena do cabelo com luzes californianas em estágio “bora refazer?”, esguia, mão pequenininha e delicada, unhas perfeitas e sempre decoradas com tons pastéis, boca pequena, lábios médios, olhos cor de mel, cercados por olheiras de estudante técnica durante a noite, trabalhadora durante o dia, sonhadora em todos os minutos. Aliança prata na mão direita, nada discreta porque o outro dono dela acha que é dono de alguma coisa, sem ser de si. Magrinho do cabelo grande e marrom, sempre de roupas sociais e fone de ouvido, cara de quem tá ouvindo musica boa ou algo engraçado – manja aquelas pessoas que parecem que vão rir a qualquer instante, mas não é nem de você, nem pra você? Bem por aí – e olhar distante, de quem tem certeza de que a dúvida é uma das melhores coisas que existem pra vida. Olhos castanhos levemente arregalados, olhos de atenção, cercados por olheiras de quem trabalha 10h por dia. Perseverante em todos os minutos. Aliança dourada na mão direita, um pouco discreta porque ele nunca foi muito convicto de usá-la, mais por causa da pessoa que o pressionou a estar com uma destas que pelo objeto em si.

Pegam a mesma condução, em todos os dias úteis. Ele fica antes da catraca, num lugar que ninguém senta, vai saber o pq. Ela fica na última fileira. Quando ele passa, ela olha para ele e disfarça. Depois, é ele quem fica olhando enquanto ela não tenta olhar para ele novamente. Quando cruzam olhares, fazem cara de “relaxa que estou olhando pra paisagem como quem procura por outra pessoa, parece que é pra você mas não é, é tipo pra você. Pegam também o mesmo segundo ônibus, daqueles grandes, articulados. Ele fica na porta 3, ela fica na porta um.

Até o dia que ela viu sua porta cheia demais, e foi para a porta três. Parou atrás dele, que estava distraído com a música, até virar-se e de relance reconhecer a pessoa, ficar vermelho, e ver o busão chegando. Entra sem ver, e senta no lugar fácil. Ela entra e senta ao lado do guri, que só presta atenção nisso uns 5 minutos depois, quando ela derruba o celular, que ele pega e entrega pra ela. “obrigado”, e o sorriso tímido dela esquenta o rosto dele; “não foi nada”, e a voz de cantor dele ampliam o sorriso dela. “você também pega o heheheheh…” foi o comentário seguinte, em conjunto. E a conversa daquele dia, base para outros, e tantos outros momentos.

As mãos pequenininhas e delicadas agora fazem cafuné no cabelo grande. Os fones de ouvido, antes grandes de isolar o áudio externo, agora são pequenos, para usar em dois. Pegam ônibus e vão para a porta, pois descem num outro ponto que leva para um caminho alternativo, mais rápido. Há conversa. Há parceria. Há um acontecimento. E quando eu falo que eles vão acontecer, não é porque eram duas almas prestes a serem afundadas no desencontro consigo e com dois buracos negros. Eles vão acontecer porque merecem. Por que amor gostoso é assim, acontece. Por que acontecer é o melhor jeito pra aprender que depois de ser real, todo relacionamento que vale a pena é natural.

[] “There’s so much going on, It gets hard to breathe / when all my faith has gone, you bring it back to me / u make it real for me…” / You make it real, James Morrison. 

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