Coisas que as nossas camadas da vida ensinam: o vicio do apego e a arte do desapego.

Digo que é vício e arte, porque poucas coisas são tão inerentes a nossa humanidade quanto o apego. De embalagens de bala duma série limitada [que foi reprisada anos depois para fisgar seu bolso via nostalgia] à pessoas [geralmente indignas de tal condição], cada um possui algo cuja dificuldade de desfazer-se é enorme.

Com ideias é ainda pior [principalmente para quem trabalha de fazê-las brotarem e ficarem prontas tipo pastel], pois além de singularmente nossas, têm o tamanho que quisermos, a força que dispusermos e toda a nossa capacidade de batalhar por elas. Deixamos que fiquem conosco, indo e voltando pelo oceano de pensamentos e sentimentos que nos conduz dia-a-dia.

Quando entendi que nem todas são boas e as melhores começam inusitadas [ou inusitadamente], as ideias cresceram, e melhoraram. Consequentemente tive que abrir mão de muito mais delas para dar vida as que resolviam problemas que precisavam E ofereciam algo mais. Passei a brigar menos e ao defendê-las, faço questão de juntar as melhorias vindas de fora, aparando tudo o que era irrelevante.

Naturalmente, levei isso para os demais campos da vida, e é essa a essência para mim do termo “alma leve”.

Quanto mais você se conhece, mais desapega das ideias [e vice-versa: mais desapego, mais conhecer, menos “espelhos embaçados” quando queremos nos enxergar]: suas a seu respeito, as dos outros a seu respeito, as conjecturas, tão divertidas quanto inúteis. Você passa a não levar suas dificuldades tão a sério assim e vê que tem gente muito [mas muito mesmo!] pior do que você, e única e exclusivamente porque querem desta maneira. Em todos os tipos de relacionamento, aprende a ser 50% de um todo; pois para ser qualquer número percentual, mas principalmente para ser uma pessoa “presencial” [relevante, positivamente marcante na vida da outra], você precisa estar inteiro. O sentido da frase “se você é pouco para alguém, esse alguém é pouco para você” [perceba como pra muito da vida é assim, mas agimos de forma oposta!] é elevado a potencia da sinceridade, e observar nos relacionamentos a fora quem é o pouco do outro fica ainda mais bacana [aprendendo assim a não imitar os erros alheios]. E passar das ideias pras coisas e pessoas, é um pulo. Mesmo sendo um hábito antigo, ainda estranham quando vez ou outra, ou quando vou comprar alguma roupa, há sempre algum pacote delas para doar aqui em casa.

Depois que a gente cultiva essa arte do desapego a vida fica simples, e aquele oceano vira um rio, do tamanho que você quiser, mas com uma rota um pouco menos infame: são as mesmas infinitas opções, num só desconhecido trajeto. Viver dificilmente será coerente, já sentir dá para ser um pouquinho. Assim conseguimos falar [e demonstrar] sinceramente só do que realmente sentimos, apegados ao que realmente nos move adiante [mesmo sendo interessante mover-se em círculos]. Assim abrimos espaço para as coisas e pessoas que já nos importam ou podem vir a nos importar de fato. Assim vamos aprender caso aconteça [e acontecem, felizmente] um erro. E aprendemos, incondicionalmente. Apegue-se, ou não, a essa sugestão, pois: viver é tudo. E o resto é só o resto.

[]Quanto mais eu refleti // Tanto mais compreendi // Tudo o que eu percebi // Que me iludiiiiiihhh…”. Compromisso, Ed Motta. | [ouça aqui]

13 thoughts on “Dos [des]apegos.

  1. Tony…de uns dois anos pra cá eu virei super adepta da políticaqestilo de vida do despego. Digo tanto do despego material quanto do desapego emocional. Mas certas coisas e pessoas são tão importantes mas tão importantes que se a gnt desapegar vai parecer que estamos desprendendo de nós um pédacinho da nossa alma. Por isso hoje eu sou da seguinte opinião: Desapegue do que te faz mal, cultive o que te faz bem ;)

    e aaaah, obrigada pela sorte desejada, acho que vou precisar!!!!

    1. Com certeza é só pra desapegar do que não nos faz bem / serve mais. É desapego justamente para abrir espaço para a nossa alma respirar e reviver esses pedacinhos tão bons, tão nossos, fazer esse cultivo realmente valer a pena.

      Acredito que com aquilo que nos completa / faz bem, o sentimento de apego traz implícito o sentimento de “liberdade”. Se nos pertence, é livre para ir e vir nos nossos pensamentos; é livre para ir e vir no nosso cotidiano; [quando p/ pessoas] São livres para ter suas próprias vidas, desejos, seus segredos, vontades não partilhadas, e sentem-se posse nossa e donos[as] de nós não por apego, mas por um conjunto de sentimentos maiores reciprocamente cativados; compartilhar é prazeroso e tudo [tudo!] é natural. Para aquela pessoa em especial, nossa metade de agora [ou do agora em diante], é tudo isso ampliado pela paixão, que constrói em torno de nós tudo aquilo que faz com que a gente se sinta um pouco mais.

      =)

  2. desapegar é bom. só não é bom quando se torna um vício, estilo apegar. aí, você começa a ficar desapegado de tudo e tem que reaprender a se apegar, pelo menos, um pouquinho. hohoho. viajei. (: ótimo texto, Tony! até o/

    1. hahahah… faz sentido sim! Excesso de desapego não deixa de ser uma fuga também. É aprender a conhecer-se e abrir espaço pro que importa numa determinada fase, pra quem vai somar com ela… e fazer o resto ser o resto :)

  3. Eu tenho apego a quê?Nao sei ao certo. Sei que, desapeguei de muita coisa.
    Hoje, nem sei como o desapego se deu.
    Mas…
    Mas, eu sou muuito visceral, daquelas de chorar,d escabelar, hoje, para, amanha, mostro que nada se deu.
    Eu tenho conseguido criar arte com minhas fotos. Algumas, eu vou expor. E as ideias vieram do nada….
    Talvez por que desapeguei das fotos originais

    Mas…
    Apego?Tenho apego aos meus ideais e sou aquele tipo de mulher que ama de forma desesperada..Vivo tudo assim….em exaustao..Para depois,s entar na beira do caminho, olhar o sol e dizer: AH,A CABOU MAS VALEU A PENA…KKK
    BJS E DIAS FELIZES

  4. O tempo nos ensina isso, mesmo sendo tao terrivekmente doloroso para alguns (olhando pros lados desconfiada, rsrs).
    Vamos aprendendo a valorar, vamos substituindo coisas, vamos progredindo, enfim, vamos vivendo…

    Saudades de vc
    Xerooooooooo

  5. Meu jovem e sábio amigo, como aprendo com você, sabia? O texto que vc me indicou lá no Cris eu amei. Muito obrigada. Thanks mesmo.

    Quanto ao desapego: uma luta diária, como tantas que nosso espírito precisa ultrapassar. O desapego às pessoas acho o mais difícil ( pra mim). Esse é importante levar em doses certas de equilíbrio para não (se ) sufocar.

    Beijão, querido. (Sorte minha ter contato contigo).

  6. Tony, a questão apego/desapego tem relação com amadurecimento. Lembro que quando era criança, tinha as minhas ‘coisinhas’ e sempre fui muito organizada. Tinha coleção ‘disso e daquilo’, livros, discos, camisetas… tudo era enfileirado em uma ordem certa, caixinhas ‘pra isso e pra aquilo’… até que um dia tive que sair da casa da mamae e cair no mundo! Não que as minhas coisas ficaram largadas, mas não era possível juntar tralhas para depois carregar para o outro canto a cada transferência de vida – a mesma coisa são pessoas; você vai peneirando os amigos e os parentes – Você começa a dar preferência para as pessoas que te dão mais carinho e atenção e o mundo que era grande torna-se pequeno conforme você vai crescendo, vê que não o seu espaço é proporcional aquilo que você conquista e que tem dentro da sua mente. Carinho e conhecimento, estes sim, carregamos para a vida toda!
    Depois que sai da casa da minha mãe, o lugar onde estou, é o que permaneci por mais tempo e ontem pensei no que venho acumulando, pensei no que aconteceria com o que tenho, se eu morresse hoje. Bem, não sei se gostaria de ver pessoas mexendo em minhas coisas e então! Resolvi refazer o meu pensamento anterior, porque também percebo que o caos, o excesso, não faz bem para a minha mente! :D Beijus,

    1. Concordo :)
      Também fui um tanto intinerante até os últimos 5 anos, e nestes fui amadurecendo isso de “o que levar, como levar, até onde levar”. Das coisas, ficou o que eu gostaria de mostrar para os que vão me suceder, aquela coisa boa de “senta aqui. Olha, no meu tempo tal coisa era assim, eu fazia desse jeito aqui ó”… É outra das coisas que “sustenta” a minha felicidade sem mais nem porque, ter aprendido e continuar aprendendo a filtrar as pessoas o que guardar / levar delas.

      Ah, se eu morrer deixa mexer! se mexer demais, volto e puxo o pé :D

  7. toni querido! Tudo bem? Obrigada pela visitinha!
    Pelo que me lembro tu já havia postado um texto com esse assunto, certo? Bah nem nos falamos mais, preciso enviar-te um email contando as novidades e como a viiida mudou de uns tempos pra cá. :D

    quero ouvir o que tens a dizer….

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