Em quanto tempo vamos fazer diferente? Enquanto a vida passa lentamente, a gente segue fazendo de conta. Que as pessoas [mulheres, especialmente] não andam mais rápido quando te veem, preto, barbado, nem sempre bem arrumado [tem dias que só tenho paciência para ser eu mesmo, desculpe!], na rua cedo, com cara séria. Nem que os seguranças de banco se ouriçam da mesma forma. Ai você saca 5 mil, com um gerente te olhando com cara de “ahh meu próximo cliente platinum”, e quase que joga na cara daqueles filhos da puta, avisando como um Muricy Ramalho das ruas: aqui é trabalho, meu filho. Preconceito? Imagina, nem tem disso no Brasil, muito menos na minha cidade, é só falta de respeito mesmo. Né? Em quanto tempo vamos fazer melhor?

Enquanto a vida passa lentamente, a gente ri junto com a criança na fila do mercado, faz o cachorro de rua rolar de alegria ao te ver, e de desapego em desapego vai fazendo a vida ficar mais simples. Só não faz o outro reconhecer e respeitar seus atos. Nem inspira o outro a fazer mais que direito, fazer perfeito pra você, sem desculpas, sem fugas, sem mimimimimimi. A gente segue sendo paciente, mas cada dia com menos fé. A gente segue se dedicando por escolha e se incomodando por obrigação. Em quanto tempo a gente sai da zona de conforto, sem imputar o terrorismo de uma perda?

Enquanto a vida passa lentamente, a gente lembra. Das tardes de clima tipo frio e tardes tipo longas, de conversar on e off-line, de correr com horários [e não por eles], das manhas de encontrar os mesmos cobradores e motoristas, e ter aquela sequencia quase rotineira de bom dias, e ai, tudo certo, bããão? Bããão, então tá bom, atétchaaaau, ou aquelas manhas de corredor feminino polonês, um oi com beijinho no rosto para cada amiguinha, e abraço com chamego nas mais próximas. Dias de estudar no frio, de frente pra uma porta cheia de frestas num comodo de madeira, com um biombo formando um cubículo exato, do tamanho da possibilidade que eu tinha de não construir coisas melhoras dali em diante: minúsculo. De mostrar aquele rap bonito do piazão novo, estirado no sofá pros ouvidos dos pais. Mal sabia que ouvi-lo seria mais que ter algo bom no ouvido, mas uma saudade que dói quando a solidão aperta mais um pouco. A gente lembra mas não lamenta. A gente segue com nossas memórias, mas vai saber até quando? Em quanto tempo a gente vive tudo mesmo?

Enquanto tivermos o tudo e o nada, enquanto vivermos o tudo e o nada, vamos assim. Rimas pobres, coração rico, mente cheia, incômodos vazios, buscando sempre ser mais a gente com a gente. A gente sempre vai conseguir deixar o resto sendo só o resto?

[] Sem música! 

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