Outra coisa legal de ter blog por muito tempo é que invariavelmente você se repete nos assuntos, e incluso fazer um a introdução sobre ser repetitivo é repetitivo. Mais que sinal de que acabo tendo um mesmo padrão de pensamentos específicos para escrever, é sinal de que tem algumas ideias que sigo perseguindo, direta ou indiretamente. A mais concreta delas é ter uma vida cada vez mais simplificada.

Nesses dias atribulados de suportar o peso do fracasso temporário da economia, o pensamento que ladeia o constante “como você pode seguir evoluindo como pessoa?” é o de “e se nada der certo, ou se acontecer uma tragédia e você não ter mais por perto as principais pessoas que ocupam os dias da sua vida, como seria?”. São os planos B e C que são devaneosamente alimentados pelo pensamento essencial descrito acima, de simplificar a vida.

Para o mundo, amarga ilusão de quem ainda pensa que uma vida simples é uma vida simplória. Acredito que ela começa quando nos conscientizamos, de verdade, que se em cada escolha há uma renúncia, não devemos escolher mais o que vamos ter ou manter com base nas renúncias, e sim no que se ganha, no que fica, no que não se vai, no que tem pra hoje em diante. Quando o desapego sobre algumas materialidades não é mais bombardeado por aquele discurso tão comum de “mas você precisa fazer isso, precisa fazer aquilo, precisa, precisa, precisa…”. E você deixa de se importar, para realmente importar. E admirar a beleza dos dias e da vida como ciclos, que vão e voltam, ficam e passam, seguem e retornam. Consegue parar de (apenas) pensar que 90% das coisas que te estressam são responsabilidade sua, e que tudo que realmente acontece na vida tem o peso de só 10, no máximo 20% de importância essencial. Se abstrai e se desencana das pequenas decepções diárias, com coisas e pessoas, aceitando as suas singularidades, e compreendendo verdadeiramente suas qualidades e defeitos. Respira fundo e toca o barco, passando o remo de um lado pro outro, olhando o rio e o mar, lembrando que eles já foram parte e vão voltar a ser oceano, e assim também somos: um fragmento de uma estrutura bem mais complexa e, no fim, o que importa mesmo?

Importa que a gente consegue viver nossa vida objetiva sem deixar de pensar nas ene alternativas. Quem sabe não é numa delas que está aquele pouco a mais que vai nos deixar ainda mais vivos? Pensamos lá no longe, mas não vivemos lá no longe. Vivemos cada dia, todos os dias, um desafio de cada vez, um aprendizado de cada vez, uma decepção de cada vez. Uma evolução pessoal por vez. Um pedaço de plano por vez. Uma vez, outra vez, outra, outra, mais outra… até que o resto seja só o resto.

[♫] “Venha ser a companheira esperada / Corpos juntos, mãos dadas / Preciso de você” | Lábios de Mel, Tim Maia.

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