Há quatro anos já havia escrito a respeito das eleições presidenciais, e vez ou outra comento a respeito do assunto.

Não que não goste de conversar sobre, apenas já entendi que, infelizmente, poucas pessoas sabem conversar sobre política sem discutir sobre política; poucas pessoas sabem distinguir opinião contrária de ataque pessoal.

Não por coincidência, achamos todos que os debates andam muito mornos, pois não há barraco, apenas troca ora marota, ora infame, de ideias. Também escrevo pouco sobre porque acredito que falar muito dum assunto, qualquer seja ele, não signifique necessariamente conhecê-lo bem/melhor.

Mas então tão, adoramos falar da tal “realidade do país”. Qual é essa realidade, cara pálida?

É a sua, blogueiro/tuiteiro de classe média alta que só anda de carro, há muito tempo não pega ônibus, mas adora postar sobre as dificuldades que o transporte público possui só porque leu numa revista semanal?

É a sua, leitor anônimo que caiu aqui buscando outra coisa na lan-house, que vai voltar da sua hora de almoço para um trabalho que lhe paga um salário que só sustenta de verdade os políticos?

É a sua, empresário de médio porte que sonega juros, paga mal aquele funcionário, mas reclama para seus amigos no barco durante o final de semana na praia que o governo não ajuda?

É a sua, estudante universitário que ainda não tem metade dos compromissos que realmente vai precisar ter na vida, mas está ai reclamando de tudo?

Ou é dos 14 milhões de semi-alfabetizados, os ainda quase 20 mi [são mais?] de brasileiros abaixo da linha da miséria, entre outro sem-número de números bonitos pra debate que poderia postar aqui? São todas elas!

Vivemos num continente e não podemos nos permitir certas generalizações que além de dar uma preguiça enorme pra discutir, retratam um pixel dos terabytes de conteúdos que somos, nação grandiosa em todos os sentidos.

São todas elas, inclusive essa que você não vê nem ao olhar pra cara do vizinho, mas adora falar da seca no nordeste.

É preciso desarmar essa visão da visão que compramos da mídia. É preciso pensar em colocar o pé na favela pra falar de classe social.

É preciso saber ler o balanço de uma empresa pra falar de desenvolvimento econômico.

Tá, fui utópico, mas peguei esses dois exemplos para relembrar que costumamos nos limitar a falar mal daquilo que não conhecemos bem, e nos omitir a respeito daquilo que podemos mudar, que está ao nosso redor.

Curioso isso ser a cara do nosso processo eleitoral, né? Curioso ser isso o motor de gestão política na ultima década brasileira, né não?

Nunca antes na história…

Lula, com todos os seus apelidos [muito divertidos, diga-se] e com um mar de criticas em suas costas [já que, como disse o filho do Fabio Jr., “você sabe que fez sucesso no Brasil quando as pessoas começam a falar mal de ti”], sai do palácio da Alvorada direto para a história.

Ah, em tempo: se você não gosta dele seja porque também cultua esse esporte nacional [falar mal do presidente] ou é fã incondicional do sujeito, é um problema seu. Não conversarei neste post sobre pessoas :). Pois soube, mesmo confundindo política de governo com política partidária, estar à frente do oferecimento de um sem-número de condições para os brasileiros prosperarem por suas próprias pernas, quando montou uma equipe que teve bom-senso em melhorar os projetos econômicos do governo anterior e aplicou um conjunto de programas sociais que por algumas décadas ainda vão incomodar a antiga elite brasileira.

Há quem goste de caminhar e há quem goste de mamar deitado, bem como há quem não sabe fazer outra coisa a não ser reclamar de tudo e de todos, mas isso é outro assunto.

A outra face da moeda disso foram os escândalos melhor explorados pela imprensa que não tem seus queridos no poder em todos os setores.

Lula soube, como nenhum outro presidente havia feito, vender a imagem do brasileiro e não de um macaco adestrado sob qualquer outra cultura que não a nossa.

E vendeu um povo de personalidade, ainda que ignorante para alguns, mas astuta, batalhadora e incondicionalmente feliz para todos.

Dentro, um líder que foi transformado em mito pela mesma imprensa que o critica.

Fora, a imagem que deve servir de referência para o que o brasileiro deve realmente parecer para o resto do mundo. E que hoje, enquanto “dá”, é Deus. Será o capeta em menos de 12 meses.

E só voltarão a falar bem dele quando morrer. Mas que ele vai fazer uma falta enorme pra imprensa, ah vai.

A pauta política ficará esvaziada, até que consigam mitificar o próximo [ou a próxima] presidente, já que todos eles são mais sem-graça que água de salsicha.

Quem vem agora?

Confesso não ver diferença ideológica alguma entre os principais candidatos dessa eleição, que apenas vestiram “uniformes diferentes” para essa disputa, ainda sob as sombras de FHC e Lula (será esse embate pequenino até quando?).

São excelentes ajudantes no desenvolvimento do país, inclusive estão há quase duas décadas trabalhando por isso, cada qual no seu setor.

Só estão distintos por legendas, uma vez que não existe [e nunca existiu, diga-se] oposição política.

Somos uma democracia muito jovem para tamanha postura ideológica, para uma verdadeira cisão cultural e social que permita afirmar que existam pólos políticos tão evidentes [mas eles continuam se formando].

Por isso não me preocupo / incomodo com qualquer que seja o eleito. Tenho a minha escolha, e mesmo que não seja ela a efetivada, vou torcer e trabalhar por um Brasil melhor para tudo aquilo e todos aqueles que minha força alcançar.

Talvez eu devesse me preocupar com quem fica (e muita gente desnecessária ficará), mas acho mais saudável investir minhas energias no que posso fazer.

O que dizer de quem gasta seus caracteres a dizer “Fulana nããão, Ciclano nããão, Beltrana jamaaaais?”, com essas ou mais letrinhas?

Bom, cada qual com sua ocupação… incluso torcer contra o Brasil.

 

Nós, filhos da democracia, e o amanhã.

A geração da qual faço parte, líderes do amanha, é de dar medo.

Tem dificuldades enormes de engajar-se com aquilo que não lhe sirva a um propósito particular. Adora transferir a sua responsabilidade para os outros [estão ai o sem-número de legislações anti qualquer coisa e as creches para bebês crescendo em PG pra não me deixar mentir sozinho], e também faz vistas grossas aos crimes que diuturnamente prejudicam as vidas de milhares de brasileiros.

Por outro lado, é quem começa a carregar um país que cresceu, desenvolveu-se, possui muita [mas muita mesmo] gente com potencial de consumo.

É a base da nova classe média que emergirá e em alguns anos estará à frente de empresas que não conhecemos hoje e das empresas tidas como de ponta, liderando famílias, organizando grupos [o que já aprenderam aprendemos a fazer através das mídias sociais] e promovendo a cultura do ser brasileiro, viver aqui, crescer aqui, ser mais aqui.

Item do qual ninguém comenta, mas cá pra nós, na minha singela [e grande] opinião, é o principal desafio brasileiro: evoluir culturalmente.

Matar o Gerson e o coitadismo, perder essa mania de valorizar mais o que é de fora, ter respeito a multiplicidade cultural que responde pela nossa identidade, reaprender que educação não é instrução e que formação não é conhecimento. Para construir uma sociedade digna para todos e fazer com que o resto seja só o resto.

[♫]”…it’s crazyiee, it’s like you see right through me and make it easieeeeeaaaar. Believe me, you don’t eveeeen have to traaaaay, oooh, BECOOOOUSE…” – You Are The Best Thing, Ray LaMontagne [e onde mais você encontra letras interpretadas, heim heim!?! =D…]

5 thoughts on “Algocracia.

    1. psé, como disse lá no começo: se fosse um assunto de se conversar, não seria discutido pontualmente [a cada 2 anos], como se fossem guerras. Por isso acredito que se há algum gigante problema no Brasil ele é cultural. Aquela política que nós aprendemos nas cadeiras de comunicação é tratada, ensinada e vivida como politicagem.

  1. E tenha uma certeza: tudo é muito mais acentuado aqui no nordeste.
    Pra ter ideia os “currais eleitorais” ainda existem.
    Troca de vto por dentadura tb e a troca em MASSA = Bolsa esmola.
    :(
    Que Deus tenha piedade de nossos filhos.

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