Como um beijo na bochecha, daqueles que deixam marca mesmo se o batom não fosse dos vermelhos-sedução, o sol iluminava a tarde de sábado e de céu limpo com bolona amarela. Depois da já velha e clássica corrida vespertina, um banho e cinema sozinho, já que sozinhos somos mesmo e mesmo quando encontramos companhias que nos completam, elas se comportam como se vivessem só por elas. No fim das contas, talvez seja só assim mesmo, não?

Ingressos na mão, fila na escada rolante, e de longe enxergou um sorriso lindo, que lembrava alguém que já sorriu para ele. Riu da lembrança anexa ao sorriso, que era o jeito mais bobo que tinha para terem se conhecido. E ficou imerso nesta lembrança até terminar de subir a escada e dar a volta pras salas de cinema, quando literalmente topou com um par de olhos cor de mel, nariz aberto e boca pequena, e cabelos castanhos enrolados, mas não cacheados. Mais uma menina linda, pensam vocês. Perfume de flores! Numa exclamação mezzo comedida, mezzo emocionada, ele disse.

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Rostos vermelhos e quentinhos (vergonha boa de sentir, quem nunca?) continuaram se entreolhando. Num sorriso completo (e como é bom recebê-los!), ela responde: como voce saaaaabe? Com aquele a arrastarinho que só meninas charmosas sabem fazer. Uma pessoa dum pedaço muito, muito importante da minha vida usa esse… acho que ainda usa, quero dizer. Faz tempo que não a vejo. Disse, num sorriso de igual tamanho e com um flash de 10 segundos na mente, do tamanho de um ano.

Não sei se vocês acreditam em destino, mas aquelas duas pessoas que tinham idos sozinhas ao shopping tinham comprado, sem se conhecerem, ingressos pra mesma seção e um ao lado do outro. Parece coisa que só acontece em texto romântico…

Passado o filme, sentaram na lanchonete mais vazia daquele sábado de outono e pediram alguma coisa pra tomar, terminando juntos uma barra de chocolate de dois sabores, a predileta de ambos. E continuando o papo sobre gente importante, os fatos marcantes, a maneira como o tempo evolui os sentimentos que alimentamos pelas pessoas, e a maneira como cada um é capaz de falar / demonstrar / sentir saudades. E como não ter saudades de um tempo que quando vivido foi espetacular e que o tempo após só o faz deixar ainda mais saudoso? Como não guardar com carinho um aroma particular, uma voz peculiar, um sem número de momentos que são puro sorriso, sorriso único, diga-se? Como não olhar pra trás e ter a certeza de que todos deram o melhor que tinham e que o que veio depois só fez (e faz) ainda mais sentido para o que somos agora? Como não continuar acreditando que mesmo quando encontramos o significado de completude num simples olhar, numa voz de nuvem, num abraço de danificar costelas, em jornais diários, numa rápida gravação de uma canção no celular (que até hoje esculacharia o vine, diga-se), em apelidos divertidos e em vídeos pré-amadores, aprendemos a ser gratos por tudo e mesmo assim, abrimos mão de tudo isso para sermos felizes as nossas maneiras, não estamos escolhendo um jeito de viver que faça tudo valer ainda mais a pena?

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Neck Kiss, de Randall Hull on 500px.com

Só não fazemos isso se não somos bem resolvidos com nossas escolhas. Se não lembramos de tudo, sentimos de tudo, fazemos de tudo, ontem, hoje, e sempre. Se não sabemos que viver é assim: tentar, acertar, errar, ver, recolher o saldo e seguir, caminhando sempre. Sem medo de ser e fazer. Sem medo de permanecer feliz. Sem medo de esbarrar com um perfume e se ver diante de mais que uma lembrança: da certeza de que só passou gente espetacular e que merecia passar por sua vida. Pra fazer a gente feliz com mais, as vezes sem por quê. Pra fazer o resto continuar sendo só o resto.

[] “Maybe I know somewhere / deep in my soul that love never lasts / and we’ve got to find other ways…” / The Only Exception, Paramore.

 

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3 thoughts on “a menina do perfume florido

  1. É isso mesmo… Um bom filho à casa sempre retorna! hahaha
    Saudade dessas delícias de texto! :D
    Às vezes nos barramos de reviver coisas por medo ou até por precaução, mas como isso é bobo, não é?
    Adoreiii! Grande beijo <3

  2. Oi, Tony!
    As lembranças quando boas são mais gostosas de serem lembradas com as pessoas que são fruto das lembranças. Tive essa oportunidade poucas vezes na vida, mas sempre lembro de um perfume – não preciso sentir o cheiro – de um sabor e até da taquicardia :D mas tenho um defeito enorme pois esqueço fisionomia, nome… eu lembro de amigos de infância, de situações com seus pais, mas não lembro nada deles. Isso é terrível. Mas isso acontece quando nunca mais você voltou e sempre seguiu por caminhos diferentes. Muitas pessoas se perderam de minha vida. No fim, somos sozinhos… :D
    Beijus,

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