Seja com a divertida arte de procrastinar, ou perdendo 1/3 do seu dia no trânsito para chegar num trabalho que paga as contas mas não vale meio sorriso, ou criando um sem-número de atividades para fugir de algo / alguém, temos estado muito, muito ocupados.

Algumas pessoas até sentem certo prazer em dizer que possuem uma agenda cheia, que não tem tempo pra nada, usando aquele velho ritual de desculpas para dizer que são importantes por fazerem muitas coisas não tão importantes assim. Outras, já não sabem mais fazer outra coisa da vida [além de ficarem ocupadas] a não ser reclamar sistematicamente em todo e qualquer lugar que consigam, a respeito dessa agenda cheia e falta de tempo. Os dois perfis talvez tenham esquecido que seja uma simples [simples mesmo] questão de escolha.

É uma conseqüência da era do conteúdo, onde os componentes desta sociedade da informação não sabem mais ficar desligados “do que pode estar acontecendo lá fora”, e precisam absorver e gerar conteúdo, relevante ou não. Neurose moderna essa de permanecer constantemente online, acreditar que a vida é bela conforme os megapixels da câmera do seu smartphone [e da quantidade de sites como esse que você acompanha], e que o mundo seria melhor se fosse 100% wi-fi. Dificuldade de todos, que geram N tipos de situações [aqui há um excelente exemplo a respeito] no mínimo curiosas. E nem adianta tentar achar algum tipo de desculpa e me dizer “olha veja bem, eeeeeeu não faço isso”, pois somos esponjinhas sociais: absorvemos os hábitos que “a maioria” pratica, e ficamos cada um com seu nível de “pití” a respeito.

Por aqui, essa ditadura da ocupação roubou um teco do sono que eu já não nutria por conta, pois minha profissão acaba fazendo a gente ficar elétrico de graça [leia-se: empolgar-se fácil com certas coisas que não são nada pra maioria mas dão um bom pra nós, da criação]. Faço muitas coisas, mas consegui, a custo de muitos quilômetros de corrida, minutos de meditação e deixadas de pensamento perderem-se, alimentar mais uma daquelas verdades simples da vida que às vezes nos reaparecem em textos pertinentes: uma coisa de cada vez. Levar-me menos a sério, desligar-me sempre que quero, aguentar ficar sempre que preciso. Esse post, por exemplo, vem comigo há 6 dias. Só consegui parar para escrevê-lo hoje. E não ganhei nenhuma ruga a mais por só conseguir fazer isso agora, até porque deixei mais alguma coisa pra depois, sem desespero. Somo isso ao privilégio de viver numa cidade que te proporciona uma qualidade de vida respeitável a conseguir fazer tudo o que gosto, e assim fica fácil, como quase sempre, acreditar que o resto é só o resto [e é!]. Uma simples questão de escolha.

E você, ainda sabe se desligar? Ou já não consegue mais ser objetivo com a própria vida sem alimentar a piração de estar perdendo algo importante?

[] ”eu hoje joguei taaanta coisa fooooooo-raaaaaahhh… eu vi o meu passado passar por miiiimm…” – Tendo a Lua, Paralamas do Sucesso.

12 thoughts on “A ditadura da ocupação.

  1. eu também cheguei a essa conclusão. mas, demorei um tiquinho. agora, as pessoas já se acostumaram a me achar ocupada. hahaha. mas, quando não tenho tempo, invento. e como sou criativa nessas horas. (:

    ótimo texto, Tony! e só dizer que eu amo todos seus comentários no meu blog. e rio alto quando você fala que lembra dos meus diálogos assistindo filmes. >_<

    beijos! :*

    1. aprendi durante o tcc e refinei no ano passado a alquimia de inventar tempo. Esse ano escrevi algumas vezes sobre “não saber” como está cabendo tanta coisa nos meus dias, por isso consegui desencanar muito com o meu ritmo. Os amigos também aprenderam a parar de reclamar do meu “sumiço” :D…

      eu é q agradeço pela presença e pelo carinho. Bjão!

  2. Me sinto na ditadura da ocupação, que me rouba horas de produtividade no trabalho ou algumas brincadeiras que poderia estar fazendo com meus filhos. O problema é que os planos do futuro estão conectados, estar alheio não é uma boa opção.
    A verdade Tony é que quanto mais vida offline vc tem, menos vida online vc nutre.
    Beijos. Parabéns pelos textos.

    1. Estou aproveitando que ainda há toda uma vida para construir, pra fazer o que quero e quando sentir que “chegou a minha hora”, passar a viver em prol dos filhos. Até lá, muito pra construir e muito mais, mas muito mesmo, para aprender. A começar por esse exercício de viver todo o offline que me pertencer sem estar alheio. E viver todo o online que é possível, sem desespero, como uma secular frase: “tudo ao seu tempo”. Mesmo que agora esse tempo pareça ter outra velocidade.

      Que bacana te “ver” por aqui, de verdade :D
      obrigado, e bjos!

  3. Eu nunca levei meu trabalho para fora da porta dele. Jamais levei um processo para casa.Sempre fiquei pasma com advogados ou juizes empencados de processos e só terem este assunto.Não sei se é estilo da cabeça ou vontade de não misturar as coisas.Quem sabe porque a mulher, dizem , é capaz de fazer dez coisas ao mesmo tempo ou pela dupla jornada de trabalho.Não sei…

    1. Ah, com certeza o “dna multitarefa” das mulheres ajuda. Mas não é com todas, pois conheço algumas que não sabem fazer mais de 1 coisa por vez, heheheh…
      Ainda conto nos dedos as vezes que trouxe trabalho pra casa. No tempo em que trabalhei em casa até administrava bem o tempo, mas não como hoje. De fato tem gente que mina o campo pessoal da vida, transformando ela em capítulos profissionais por completo. Não consigo e nem pretendo. Aliás, acredito que vida pessoal e profissional, na verdade, sejam uma coisa só. Numa outra oportunidade escrevo 1 post só por isso.

  4. Aqui a procrastinação só acontece quando não há pressão, porque sem isso parece que não funciona. Assim como a Juliana, sou mais criativa em dias em que o cérebro está em roda viva – Em suma, para todos o relaxamento não funciona!
    No início do post me veio a figura do Garfield à mente! Ele sempre está muiiiito ocupado tirando uma soneca!
    Beijus,

    1. Eu tenho uma tirinha fantástica dele num dos cadernos de escrever, antigos. Ele deitado nos tres quadros. No primeiro, apenas ele. O Jon passa por ele no segundo: ” e ai Garfield, cansado de não fazer nada?”. “Exausto”. =D… comigo há um pouco de disciplina, o que ajuda a “baixar” a pressão. Minha cabeça fervilha a partir da tarde, nem quando vou dormir [ou tento] tem parado :P… bjão!

  5. eu sentei com esse post numa mesa de bar e conversamos por um bom tempo, com direito à muitas caipirinhas (pra desligar mais rápido).

    eu tô exatamente assim, tony. a diferença é que apesar de viver na cidade (dita) maravilhosa, não tenho toda essa qualidade de vida que os amigos curitibanos tem (aliás, a cidade maravilhosa não é aqui mas aí).

    em pleno sábado, muitas vezes me pego pensando “obaaa, hoje é dia de ler o greader” mas daí eu penso no namorado que espera o fim de semana para fazermos algo, nem que seja dormir até mais tarde. e a gente acaba se culpando por não dormir um tico mais, por não fazer o supermercado mais longo, a gente fica meio puto por VIVER A VIDA, não sei te explicar. até porque ler o greader também é viver a vida, não? vc me entende?

    acho que precisamos é tentar encaixar o que mais gostamos de fazer nas frestas de tempo que nos sobra nessa correria toda. um chopp, um livro, um podcast, manicure, um café. e por que não deixar algumas coisas pra depois?

    um beijo, amigo.

    1. uia, meu post passeou :D

      eu entendo você sim.
      As coisas que escolhemos fazer online passam a ser da nossa vida e um pouco “a nossa vida”. Não podem é ser substitutas, principalmente quando existem escolhas e opções um tanto mais pertinentes do que permanecer aqui. Foi como escrevi pra ti no seu blog: viver vale a pena, e com isso refiro-me principalmente à 15 minutos na cama sem [re]ligar o celular. 10 minutos de beijos e chamegos ao invés checando os e-mails, que ficarão lá mais um minuto ou toda a vida. Mais meia hora na fila do mercado [comprando coisas para fazer o de sempre + algo novo / diferente / ou que seja feito pra alquém que amamos] olhando normalmente para estranhos e sorrindo para crianças que te abobam do que tentando fechar o joguinho 1quetánaultimafaseagoraeuconsigojáquetenhotempo. Entre várias outras coisas que poderia citar. Sequer me passa pela cabeça criar o começo de um franzir de testa porque escolhi calanguear de bike [principalmente durante as noites da semana] do que deixar as inboxes em dia…

      Se não tivesse muita coisa bacana para fazer aqui não ficariamos tanto tempo, é fato. Mas tudo que é demais sobra, e nem tudo é tão bacana assim, nossos filtros estão sendo constantemente bombardeados por muito do que “é demais”. E há mais o que fazer sem celular, notebook, tablet. É primeiro estabelecer [temporaria ou não] uma certeza de como queremos usar nosso tempo, e usá-lo a nosso favor. Pra encaixar o que mais gostamos de fazer e sim, deixar algumas coisas pra depois [2].

      E sim, Curitiba é um desbunde mesmo… beijo =)

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