A barba não tinha mais para onde crescer. Os olhos já eram marejados por conta, não havia mais o que chorar. Ele sabia que tinha chego, só não sabia onde estava. Muito menos o que era. Imaginava o que tinha sido. E tinha vergonha de pensar nisso.

Olhou pra dentro de si, nada aqui. Não desconcentrava do cheiro do pó, que levantava junto com ele daquela cama com 3 pés e meio quebrados, com o colchão velho, duas molas aparecendo na linha dos pés, manchas multicoloridas, um cobertor xadrez em azul, cinza e vermelho, esse um pouco mais novo, um travesseiro de papelão dobrado quatro vezes e meia. Um rastro de poeira e ácaros levantou bailando com ele, a luz entre três [dos 44, ele mesmo checa o número todas as noites] buracos no telhado é que mostrou. A textura das paredes combinava com as do rosto. Marcas da vida, alguém diria. Vida que marca, resmungou diante do pedaço de espelho, encostado entre a torneira que um dia pareceu prateada, colada na pia, e a escova de dentes suja que enrolou um pouco do tubo para tirar a antepenúltima gota [precisava durar mais dois dias] de pasta dental que não aparecia mais na TV. Saiu, caminhou, caminhou, caminhou, mancando, mancando, mancando.

Rosto entre os dedos, quando olhou pra eles tentou reformular aquela frase clássica a respeito de anéis e dedos, mas de tanto não mensurar a riqueza de um, não soube valorizar os outros. Se estamos falando dos anéis ou dos dedos, escolha você. Ele esqueceu a frase. Quem pensa em alguma coisa quando está há 5 dias com fome? Ele é que não. Estendeu uma das mãos para fora das pernas longas, no calçadão de um centro populoso (e ensolarado) qualquer. Só o cachorro viu, e arregalou os olhos, buscando no cheiro da mão, a esperança que aqueles dois conjuntos de ossos não possuíam mais.


E enquanto o carrinho de reciclagem não ficava pronto do acidente que tinha atropelado aos dois [carro e dono], não pensava no que mais fazer. 5 horas ou 5 anos? Eram 5 dias, 5 dias de fome, então tanto faz. Há algum tempo, nenhum lapso de serenidade. No máximo, esparsas lembranças. Como a que uma transeunte lhe despertou, com sua sandália de dedo, vestido florido, perfume da atriz da novela da época, óculos e chapéu de praia, bolsa a tiracolo, azul cor de mar. Como a que o carro que passou sem buzinar, parou no sinaleiro para deixar a moça atravessar. E nele, a música que tocava tinha uma frase que quis resumir o que esse conto não quer contar:

“tem dias que a gente se sente
como quem partiu ou morreu.
A gente estancou de repente…”

 

Se o título começa com aquele símbolo, no final tem música, que é a inspiração direta do texto.

Chico Buarque, Roda Viva. Letra (e uma versão fantástica) aqui.

4 thoughts on “(( ♫ )) O mundo roda. O mundo rola. E não está nem aí.

  1. A falta de esperanças! Poço vazio! Esperando a morte chegar! Que vida!
    Tem um senhor que mora na minha rua. Dizem que não era feliz e largou tudo para trás, família, filhos, emprego… agora perambula, vive de reciclagem e sempre sorrindo. Quando o encontro ele sempre dá bom dia e eu penso, ainda bem que aqui não faz frio. Nunca pediu nada para ninguém, não é sujo, vive limpinho, conhece toda a vizinhança e já espantou uns engraçadinhos que me cercaram na rua e confesso que sinto uma certa segurança com ele por perto.
    Se essa foi a sua opção, não sei! Muito triste quem quer mudar de vida e não tem caminho! Beijus,

  2. Nossa que coincidencia: ontem bem cedinho enquanto estava esperando meu transporte, chegou um “andarilho” cheio de sacos, com uma aparencia muito parecido com o senhor do texto.
    Dei bom dia, conversamos bastante e houveram duas suspresas: a minha por ouvir uma conversa tão culta, uma história tão emocionante e a dele que me confessou que há anos nao recebia um bom dia.
    Há tantas pessoas INVISIVÉIS, eles são também EXCLUÍDOS.
    Isso tudo é tão lamentável.

    :(
    Bjs, saudades de vc.

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